Apagão de mão-de-obra – você já ouvir falar nisso? É o nome de um fenômeno até então inédito no Brasil: em alguns setores da economia, faltam profissionais e sobram vagas. Efeito direto do crescimento, essa carência revela um problema crônico: a formação escolar deficiente da maioria.

“Emprego S/A”, a nova coluna do Bom Dia Brasil, mostra hoje que quem investiu em educação dificilmente fica sem carteira assinada. São mais salário e mais benefícios. Que tal benefícios como trabalhar em casa, curtindo os filhos? Essa é apenas uma das vantagens que a disputa por profissionais está proporcionando.
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Qualificar um funcionário, no entanto, leva tempo e exige investimento. Como não podem esperar, muitas empresas estão buscando profissionais no exterior e até investindo em cursos de formação dentro da própria fábrica.
O administrador de empresas Rogério Antunes esclarece dúvidas, dá orientações e distribui tarefas. Não é à toa que ele desperta a atenção dos colegas. Ele tem o conhecimento.
Formado em administração de empresas, Rogério Antunes fez quatro cursos de pós-graduação em marketing – dois no Brasil e dois nos Estados Unidos. Rogério é o típico profissional disputado pelo mercado de trabalho. Não por acaso, quatro grandes empresas tentam contratá-lo.
“Nunca imaginava ser tão disputado assim. Pelo contrario, até por não ter histórico de ser de uma família que tem executivos na família”, comenta o administrador de empresas Rogério Antunes.
A economia do país cresce e a procura por mão-de-obra qualificada dispara. O Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) revela que a demanda por profissionais com conhecimento aumenta numa velocidade que a oferta não acompanha. O problema é maior nas regiões Norte, Centro-Oeste e Sul. No Sudeste, a disputa é acirrada. A exceção é o Nordeste, onde o número de funcionários qualificados ainda supera a oferta.
“O país ficou 15 ou 20 anos sem crescer e há dois ou três anos o crescimento parece que veio para ficar. As empresas estão mais confiantes, estão investindo, estão aprimorando os produtos, estão criando novos produtos. Elas precisam de gente e, de repente, descobriram que não há gente em número suficiente para sua demanda”, observa o economista da Universidade de São Paulo (USP), Hélio Zylberstajn.
Dependendo do setor, a dificuldade de contratação é grande em todas as regiões, como nas áreas de eletrônicos, informática, ciência e tecnologia. Cláudio Carvas dirige uma empresa que desenvolve equipamentos de controle de tráfego aéreo. Tem 350 funcionários e 40 vagas difíceis de preencher para matemáticos, físicos e engenheiros com conhecimento específico no setor. E pior: sofre o ataque de fora.
“Hoje em dia a concorrência não é só específica da nossa área, que é uma área mais técnica, mas também a gente sofre a concorrência de outras áreas que procuram elementos equivalentes ao nosso. Eu diria que é a primeira vez que a gente encontra uma situação tão difícil de passar”, comenta o diretor de empresa Cláudio Carvas.
O assédio aos funcionários qualificados é cada vez maior. Os engenheiros Juliana Gonçalves e Fernando Salla mal chegaram à empresa e já receberam convites para sair.
“Eu acho que, no começo de sua carreira, principalmente nos primeiros cinco anos, você tem que pensar no seu aprendizado, não só em salário ou em benefícios. Estou feliz, mas se bobear o vizinho vem aqui e tira você daqui”, disse a engenheira Juliana Gonçalves.
“Eu pauto minha carreira em mim, no meu crescimento e nas empresas. Então, onde eu tiver um desafio interessante que eu possa utilizar o meu conhecimento e que eu consiga crescer acima de tudo, eu vou atrás, eu aceito sem problemas”, garante o engenheiro Fernando Salla.
Segurar os melhores funcionários virou um problema nacional. Foi o que concluiu um encontro recente entre 200 executivos de recursos humanos em Miami. O Brasil está perdendo mão-de-obra qualificada para os vizinhos da América Latina e se vê obrigado a trazer gente de fora.
O executivo Rui Ribeiro desembarcou em São Paulo há três anos para implantar um sistema de administração em agronegócio e descobriu uma barreira: conseguir gente preparada para botar o projeto em andamento. Resultado: teve que trazer colegas de Portugal para treinar brasileiros.
“Nosso ativo é conhecimento. É uma empresa que vive do conhecimento. Portanto, é crucial o treinamento dessas pessoas que estão aqui na empresa e tê-las muito bem treinadas e muito bem aliadas para a implementação de inovação”, afirma o executivo da empresa Rui Ribeiro.
O interior do que vai ser um avião é um produto altamente sofisticado, que exige muita precisão e que une tecnologia da informação, eletrônica, ciência da computação, cálculos matemáticos, físicos e todo um conhecimento aeronáutico. Se já está difícil conseguir mão-de-obra qualificada, imagine neste setor? Por isso a empresa, em vez de buscar profissionais fora do país, decidiu criar um curso de pós-graduação especifico para essa atividade.
Todo ano, quatro mil engenheiros de todo o país disputam as cem vagas do curso. Eles recebem uma ajuda de custo, transporte e alimentação, aprendem a desenvolver projetos em Aeronáutica e um ano e meio depois são contratados pela empresa.
“Acho que existem poucas possibilidades dessa no mercado. Essa, eu acho especialmente, acho bastante interessante porque a gente entra sabendo que existe a possibilidade de entrar na empresa de fato. E a gente vai sendo treinado numa área bastante especifica para qual a gente vai trabalhar depois”, explica a engenheira Natália dos Santos.
É o que vai ocorrer com o engenheiro Fernando Vogen dentro de dois meses.
“É uma grande satisfação. A gente sente que houve uma transformação como profissional, houve uma preparação. Agora a gente está no auge da energia. Então, realmente, a minha vontade é empregar essa energia em prol da empresa”, disse o engenheiro contratado Fernando Vogen.
Esse é o retorno de um investimento de R$ 7 milhões por ano.
“É mais seguro para a empresa, certamente, porque há uma soma de paixões: a paixão pelo país, pelo produto, pelo local que ele trabalha. E isso é muito diferente de trazer uma pessoa que não tem esses compromissos”, afirma o professor do curso Sidnei Nogueira.
Estudar, aprender e acumular conhecimento – foi o que sempre fez o administrador de empresas Rogério Antunes. Diante das quatro propostas que recebeu, ele já decidiu: vai para uma multinacional de energia com o benefício de trabalhar três dias em casa, aos 35 anos de idade.
“Aproveitei o momento e as oportunidades. O mercado está bastante aquecido, e eu tenho condições de escolher para onde eu vou. Agora tem que aproveitar”, conta o administrador de empresas Rogério Antunes.
O professor José Pastore diz que toda vez que o crescimento do Brasil chega perto dos 5%, as empresas enfrentam muita dificuldade para encontrar mão-de-obra e para crescer mais. Por causa disso, aposentados e até mesmo empregados que haviam sido demitidos estão sendo recontratados.
FONTE: BOM DIA BRASIL





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